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Acompanhamento psicológico dos atletas é de responsabilidade dos clubes de futebol?

Comentário(s) 11 outubro 2019

desempenho atleta

Com rotinas exaustivas e grande cobrança por resultados, desempenho e comprometimento, é comum que muitos jogadores busquem ajuda nos mesmos locais de origem das pressões. Mas, será que os clubes têm se importado e se dedicado ao acompanhamento emocional e psicológico desses atletas?

Os clubes brasileiros possuem apenas um psicólogo para atendimento de toda a equipe, que tem como objetivo fazer o time caminhar, e não necessariamente, cuidar da saúde mental e emocional de cada jogador, deixando de estudar, por exemplo, a performance de sono e qualidade de vida deles. Para se ter uma ideia, segundo uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP e do professor Rafael Moreno Castellani, realizada com 5 jogadores, 12 integrantes de comissão técnica e seis dirigentes de três clubes, o futebol se apresenta como uma organização conservadora, excludente, “fechada”, de privação e controle. Um exemplo disso é a prática da concentração antes das partidas. Dirigentes e membros da comissão técnica acabam criando um espaço de confinamento e reclusão, dentro de uma ideia de que os atletas devem ser monitorados a fim controlar e regulamentar o comportamento de cada um.

Como o jogador jovem, que possui compromissos sociais em excesso e exaustiva agenda de treinamentos terá conhecimento dos seus limites, ritmos biológicos, da sua interação com o ambiente e com o ser humano? Como ele manterá o controle para lidar com a fama, o dinheiro, cobranças por vitórias e títulos, família, relacionamentos, religião, mudanças de estados e países, mudança de idioma? A resposta parece óbvia: estando próximo a familiares, treinador, empresário e psicólogo. Mas, mesmo abordando estas questões, você deve estar pensando que, uma vida de sucesso e muito dinheiro não deve ser mais difícil quanto a de qualquer outro trabalhador, não é mesmo? Errado!

Primeiramente, devemos lembrar que atletas estão propensos a adoecerem como qualquer outro ser humano. Se pensarmos que, alguns atletas possuem uma personalidade introspectiva e sem o devido preparo emocional, o excesso de visibilidade, dinheiro na conta e cobranças tornam-se gatilhos para perder o foco e desenvolver hábitos errôneos e sintomas depressivos ou doenças psicológicas como ansiedade, síndrome do pânico e transtornos obsessivos. No Brasil, um dos países com mais casos de depressão, 6% da população sofrem com a doença, um total de 11,5 milhões de pessoas. A estimativa da Organização Mundial da Saúde é que, até 2020, ela seja a mais incapacitante do mundo — e o mais triste nisso é que há uma grande negligência quando se fala em saúde mental no esporte no Brasil.

Ainda segundo a pesquisa da IP da USP, a pressão sobre os jogadores é diária e intensa, vem de todos os lados e nas mais diversas intensidades, ou seja, de torcida, comissão técnica, dirigentes, imprensa, família e empresários. E talvez, seja essa uma das maiores demandas psíquicas entre os atletas, que deveria, em tese, ser assessorada por um psicólogo do esporte.

Os clubes brasileiros, e até mesmo empresários, precisam entender a importância de um acompanhamento psicológico constante — não somente quando há um problema instalado. Precisam assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento desse tipo de projeto com seus atletas. Ao conhecer e respeitar o ciclo circadiano é possível obter melhora no desempenho pessoal, social e profissional.

Por Bruno Vieira,psicólogo com especialização em Psicologia e Desempenho Esportivo pelo FC Barcelona 

Edição 250

Novembro 2019

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