Saúde

Mulheres, filhos e maternidades no divã

Comentário(s) 29 novembro 2016

Margareth Arilha

Margareth Arilha

Em Psicanálise, pen­sar a vida no femi­nino implica desta­car a sexualidade, mas não há como escapar da pers­pectiva reprodutiva: um filho. “Quero ter um filho” ou “não quero ter filhos”, ou, ainda, “não quero ter filhos agora, dessa manei­ra, com essa pessoa” são expressões comumente enunciadas.

A inserção da tecnolo­gia reprodutiva no tecido da vida sociocul­tural moderna tem permitido, a princípio, que uma gravidez seja uma opção. No en­tanto, estudiosos ainda mostram perplexi­dade com o grande número de gravidezes que “acontecem”, mostrando um volume ex­pressivo de nascimentos em que, a princípio, não teria havido uma clara decisão das mu­lheres e/ou de seus parceiros, de qualquer estrato social ou idade. Ocorre que não se toma em consideração que o inconsciente, de fato, como a Psicanálise claramente tem mostrado ao longo do tempo, determina as nossas ações.

No confronto com a sexualidade, as cha­madas “falhas do método” ou “esquecimen­tos” ou “imprudências”, podem e devem ser consideradas também como expressão de desejos inconscientes no campo da repro­dução, que possivelmente inseridos numa rede de significantes definiriam o sujeito, em sua singularidade, expressando senti­dos específicos nos cenários de sua vida. Da mesma forma, o desejo do filho frente a uma infertilidade pode vir a se expressar de maneira contundente, fazendo com que muitas mulheres ou casais quei­ram se dedicar a tentati­vas caras e desgastantes, do ponto de vista psíqui­co, para preencher aque­les mesmos desejos.

Por outro lado, também são significativas as per­das, em distintos momen­tos da vida, quer seja pe­lo filho que não surge, ou pelos abortos espontâne­os, ou pelos abortos provocados que se re­alizam por distintas razões, ou pelos óbi­tos fetais durante uma gestação – fatos tão frequentes na vida reprodutiva das mulhe­res. Ou, ainda, afastamentos dos filhos por razões complexas da vida contemporânea, como por exemplo, tentativas de melhoria das condições de vida presentes ou futuras, ou até mesmo mortes.

Todos esses fatos trazem sempre a dor do desamparo e a necessidade de reconstru­ções discursivas que permitam a elabora­ção psíquica. Frente a frente com a cultura de seu tempo, com os filhos de seu tempo, as mulheres, assim como os homens, podem buscar na psicanálise a experiência, o espa­ço e a liberdade de se confrontarem consi­go mesmos na presença do/da psicanalis­ta, com quem poderão redesenhar suas ex­periências simbólicas e transformá-las em novos cenários desejantes.

Artigo da psicóloga e psicanalista Margareth Arilha
Contatos: 11-97452-2193, arilha@hotmail.com

Edição 224

Setembro 2017

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