Jornal Mexa-se

07 de março 2020 às 07:00

Moda: substantivo feminino

Geral

07 de março 2020

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Moda: substantivo feminino

É a moda como expressão de cultura e dos direitos humanos culturais. A indústria da moda tem um poder de conscientização do planeta e trabalha em toda a sua cadeia com produtos criativos, culturais e manufatureiros. A indústria da moda é predominantemente feminina, ou seja, 75% são mulheres que trabalham no setor de vestuário, segundo dados do Instituto C&A.

A “Era do café” já foi sinônimo da riqueza do Brasil, economicamente. As mulheres, mais do que isso, chamadas de “pianistas de armazém”, traçavam seus caminhos à moda brasileira (era o trabalho feminino na catação do café). Minhas homenagens a elas no próximo dia 08 de março. De costureiras das sacas para abrigar o produto a símbolos de luta por igualdade e empoderamento.

“Do século XIX até a década de 1920, a tarefa de conserto das sacarias danificadas era um trabalho manual e predominantemente domiciliar, executado por mulheres em São Paulo e Santos. A sazonalidade da demanda caracterizava uma mão de obra avulsa e desencorajava o investimento em maquinário. Posteriormente, as costureiras passavam a ser absorvidas pelas fábricas, substituindo também a costura à mão pela máquina de costura. Apesar de não atuarem mais em Santos, as costureiras ainda trabalhavam em algumas fábricas junto dos centros produtores, fazendo os reparos não só em sacaria de juta, mas também em big bags.” (Museu do café, Santos-SP).

Para a Agenda 2030, da ONU, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 5 é a Igualdade de Gênero: Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. E a moda, como “reflexo do que se vê em nossas calçadas” (Rapper Emicida, grife LAB na São Paulo Fashion Week em 2017), como cita Flavio Leão Bastos no livro Fashion Law - Direito da Moda. Ou seja, como reflexo do que acontece no mundo, deve fomentar o empreendedorismo feminino e a sua participação de forma ativa em todos os níveis de emprego e cultura.

Na semana de moda de São Paulo de 2018, Ronaldo Fraga trouxe as mulheres da tragédia de Mariana ao “fashion show”, bordadeiras de suas criações, como sementes de um mundo novo, para manter viva a memória têxtil de uma comunidade e para a criação de novas oportunidades de emprego.

No Carnaval de 2020, foi a vez das fantasias da velha guarda da Escola de Samba Rosas de Ouro. Para o estilista mineiro, não há diferença entre fazer moda, ópera, teatro ou carnaval. “A gente trabalha com desejo, ilusão, o que vai provocar no coração do outro."

É a moda como expressão de cultura e dos direitos humanos culturais. A indústria da moda tem um poder de conscientização do planeta e trabalha em toda a sua cadeia com produtos criativos, culturais e manufatureiros.

A indústria da moda é predominantemente feminina, ou seja, 75% são mulheres que trabalham no setor de vestuário, segundo dados do Instituto C&A.

A moda, assim como o substantivo, pode ser sujeito, predicativo, objeto, complemento, aposto ou vocativo. Sim! A moda, como arremata Fraga, “está louca para se libertar da roupa e precisa estabelecer diálogos com outras fontes”. É interdisciplinar, necessita de um input criativo e vai além da funcionalidade.

Hodiernamente, a moda é muito diferente do que já foi em décadas anteriores. Nas palavras de Enrico Cietta, há uma “culturalização da moda” (Economia da Moda, p. 98).

Mas, a moda, acima de tudo, é um substantivo feminino! Pensada por muitas mulheres (cadeia criativa), feita por outras e para muitas delas (cadeira produtiva), evocando muitos mundos. Parabéns às mulheres que fazem a moda, de todos nós, do Direito da Moda, cada um à sua moda!

Por Renata Domingues Balbino Munhoz Soares, professora e coordenadora do curso de Pós-Graduação em Direito e Moda da Universidade Presbiteriana Mackenzie.