Jornal Mexa-se

12 de novembro 2020 às 07:00

É possível envelhecer sem problemas de memória

Saúde

12 de novembro 2020

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É possível envelhecer sem problemas de memória

É comum associarmos problemas de memória à velhice. Quando esquecemos algo, justificamos logo com o famoso “estou ficando velho”. Mas é preciso acabar com essa ideia equivocada: a perda da memória não é algo inevitável no processo de envelhecimento. “Muitas pessoas ainda pensam que é normal um idoso esquecer das coisas, ou mesmo que todo idoso terá Alzheimer. Essas afirmações são falsas e é de extrema importância desmistificá-las”, afirma o geriatra Felipe Bozi.


De acordo com o especialista, a idade não é o único fator determinante para o desenvolvimento de problemas de memória e podemos encontrar pessoas de 90 anos com ótima memória e qualidade de vida, enquanto outras de 70 ou 60 anos irão apresentar problemas de memória que impactam no dia a dia delas. Para entender melhor a diferença entre uma doença degenerativa e um simples esquecimento, é importante saber o que muda nas nossas funções cognitivas quando envelhecemos. 


Segundo o médico, todos temos, efetivamente, uma redução na velocidade de processamento das informações com o passar dos anos. Isso quer dizer que, conforme envelhecemos, precisamos de um maior tempo para ler, reter e compreender novas informações. Também diminui nossa capacidade de atenção dividida, que nos ajuda a desempenhar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. 


“Essas duas alterações são normais com o envelhecimento. Já o esquecimento de coisas importantes, como não lembrar o nome de pessoas do seu convívio social ou não conseguir reconhecer ou nomear algum objeto, e até mesmo perder a capacidade de fazer frases completas, não são normais. E é preciso que a gente saiba que esses problemas demandam uma avaliação para que possamos entender o que está acontecendo com o idoso”, diz Bozi. 


Causas reversíveis X irreversíveis


O envelhecimento pode, então, trazer um pequeno déficit de atenção e de concentração, mas de nenhuma maneira compromete as funções sociais de uma pessoa. Todos terão esquecimentos pontuais, independentemente da idade, e isso é normal. Mas quando é o caso de se preocupar? 


Para o geriatra, quando a perda da memória começa a impactar nas atividades diárias da pessoa idosa, quando impacta em sua sociabilização ou nas atividades que gosta de fazer no dia a dia, como, por exemplo, acompanhar a trama da novela que assiste na televisão, é preciso procurar profissionais médicos que possam pesquisar e entender o que está acontecendo com a pessoa.  


“Vamos buscar por causas reversíveis de alterações de memória, como, por exemplo, falta de vitamina B12 ou alterações de tireoide - que são distúrbios que podem gerar falhas na memória, mas que, com tratamento, conseguimos melhorar o quadro. Descartadas causas reversíveis, temos as irreversíveis, que seriam as demências neurodegenerativas. Entre elas, a mais comum é o Alzheimer, que é um problema de memória de instalação lento, progressivo, que aumenta a sua prevalência conforme as décadas passam depois dos 60 anos”, explica o médico. 


Por achar que é normal que o idoso tenha problemas de memória, que ele deixe de fazer suas atividades habituais porque está mais esquecido, ele mesmo e os familiares atrasam a busca por uma avaliação médica adequada. Quanto antes o problema for identificado e o tratamento iniciado, maiores serão as chances de êxito. 


Fatores de risco


Parte dos problemas de memória é associada a fatores genéticos que não podemos modificar, mas, em outros casos, é possível atuar para melhorar a situação. De acordo com o médico, um fator importante associado a problemas de memória na velhice é a perda auditiva. 


“Sabemos que a pessoa idosa tem uma tendência à redução na capacidade de audição, própria do envelhecimento, e isso precisa ser visto precocemente, pois quanto antes a gente conseguir corrigir o problema de audição, melhor será para tentar manter uma boa memória. Uma boa audição permite que a pessoa continue socializando, interagindo com familiares, e isso é essencial para manter ativo o circuito dentro do cérebro”. 


Doenças como pressão alta e diabetes, vícios como cigarro e uso de álcool, também são fatores tratáveis e que evitam que se tornem um risco para a memória. Outros pontos importantes de serem observados, segundo o geriatra, são a falta de atividade física, o isolamento social e a depressão. 


“Devemos tratar a depressão de maneira adequada, reconhecer os seus sinais e fazer o tratamento. E é importante estimular a socialização da pessoa idosa: ela deve estar inserida num meio em que consiga conversar e interagir com outras pessoas e que tenha hobbies que estimulem e mantenham a sua mente ativa. Isso tudo vai ajudar na tentativa de evitar um problema de memória”, completa. 


Dicas de como prevenir


Além de acompanhamento médico periódico, todos podemos desde já adotar hábitos saudáveis que nos ajudarão a manter nossas funções cognitivas e nossa memória em excelentes condições futuramente. Confira algumas dicas do médico:


- Praticar exercícios físicos e manter o corpo ativo;


- Tratar doenças crônicas (pressão alta, diabetes); 


- Deixar de fumar e de ingerir álcool em quantidades excessivas; 


- Manter sempre uma boa sociabilização, tanto com familiares quanto com amigos;


- Manter a mente ativa: assistir a programas estimulantes na televisão, ler ou fazer atividades como sudoku e palavras cruzadas.