Jornal Mexa-se

29 de março 2021 às 07:00

Dermatilomania: doença crônica ligada à ansiedade faz paciente cutucar e lesionar a pele

Saúde

29 de março 2021

CompartilharCompartilhar

Dermatilomania: doença crônica ligada à ansiedade faz paciente cutucar e lesionar a pele

Todo mundo sabe que não devemos cutucar a pele, seja quando surge uma espinha, ou alguma alteração na pele. Mas, para algumas pessoas, o desejo está sempre lá: mesmo sabendo dos danos, elas ‘cavam’ profundamente a pele, cutucando manchas e arrancando cortes, crostas, espinhas, picadas de insetos, e assim por diante. “Mesmo em casos em que a pele já está vermelha, sensível ou sangrando, alguns pacientes não conseguem parar de coçar. Essa é uma condição crônica que afeta 1,4% da população mundial e é chamada dermatilomania, que é esse ‘desejo’ constante de esfolamento cutâneo”, afirma a dermatologista dra. Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. “Ligada fortemente à ansiedade e problemas emocionais, pacientes que sofrem com esse problema necessitam de atenção maior, principalmente nesse momento de pandemia, em que as incertezas são generalizadas”, completa a médica.


Além do desconforto de cutucar continuamente a pele, a dermatilomania pode causar uma série de outros problemas, como a criação de crostas e, em alguns casos, levar a infecções graves, às vezes a ponto de o paciente precisar de antibióticos, segundo a médica. “A condição também pode deixar cicatrizes, que podem exigir tratamentos profissionais - incluindo lasers - para melhorar, enquanto algumas nunca irão embora, mesmo com o tratamento”, afirma a médica.


A cutucada pode ocorrer a qualquer momento durante a infância, adolescência ou até mesmo na idade adulta. Raramente é uma ocorrência isolada. “Geralmente é comum em pessoas com acne, onde os pacientes pegam espinhas ou pele que está cicatrizando de espinhas anteriores. Também está normalmente associado a outros distúrbios psicológicos, como ansiedade”, explica. Às vezes, as pessoas cutucam a pele mesmo quando não há erupções ou manchas. “Os pacientes podem coçar uma área da pele que dá a sensação de coceira ou que parece que tem insetos rastejando. Em muitos casos, os pacientes realmente acreditam que há insetos em sua pele que precisam ser detectados. Não está claro se existem realmente micro-organismos na pele ou se o cérebro está interpretando uma queima excessiva dos nervos como uma sensação de formigamento”, diz a dermatologista.


Em alguns aspectos, a dermatilomania é semelhante ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Ambos envolvem comportamentos repetitivos em resposta a pensamentos perturbadores e intrusivos. Para alguns, cutucar até quase arrancar a pele pode ser um ritual dentro do TOC. Pacientes com esse tipo de condição relatam que, assim que tiveram alguma consciência do seu corpo quando criança, começaram a cutucá-lo. “Os pensamentos associados aos impulsos podem ser bastante persuasivos. O paciente sente que ‘algo fora do lugar’ na sua pele precisa ser ‘consertado’. O desejo pode ser tão perturbador que a capacidade de prestar atenção ou até mesmo de relaxar e dormir pode ser prejudicada”, explica a dra. Paola.


Como cuidar da sua pele


Os comportamentos compulsivos, como a dermatilomania, podem piorar durante os períodos de estresse emocional. Portanto, para muitos desses pacientes, essa pandemia foi extremamente prejudicial. Nesses casos, criar uma rotina de cuidados com a pele e segui-la pode ser útil. “Isso também significa não inspecionar a pele no espelho do banheiro e fazer um esforço consciente para guardar o espelho de aumento”, diz a médica. Ela também recomenda definir um alarme no telefone para limitar o tempo para ficar se olhando no espelho antes de dormir. “Além disso, uma loção para as mãos e manter as unhas curtas e lixadas ajudam porque é mais difícil de machucar a pele”, afirma.


Também pode ajudar tentar rastrear os impulsos - onde você está, quais ferramentas está usando, quais são seus pensamentos antes e depois de cutucar a pele, bem como suas emoções e o que aconteceu para desencadear isso. “Compreender os porquês e as variáveis ajuda a descobrir as próximas etapas e aumenta a atenção em torno do hábito. Embora todas essas ferramentas possam ser úteis - e de fato elas ajudam -, é importante saber quando procurar ajuda profissional. Se você está cutucando sua pele e o ato de cutucar ou as marcas deixadas estão atrapalhando suas atividades diárias, é importante procurar os cuidados de um terapeuta também”, finaliza a dermatologista.